Otelo Saraiva de carvalho

Morreu uma figura história: Otelo Saraiva de Carvalho.


É difícil para quem tem menos de 40 anos de idade e nasceu e vive em democracia imaginar o é um GOLPE DE ESTADO.

Mas o que é um golpe de estado? E que papel Otelo Saraiva de Carvalho desempenhou no 25 de Abril de 1974?

É preciso lembrar que vivemos na Europa, um continente onde os seres humanos desenvolveram algumas das suas mais impressionantes características.

Desde a Antiguidade Clássica que descobrimos uma curiosa forma de viver em comunidade chamada democracia. Ao longo de 2000 anos os povos europeus foram tentando, passo a passo, reproduzir, aqui e ali formas de colegialidade e de democracia. Aos poucos, século após século, foram-se formalizando regimes que se aproximavam das democracias modernas. Eleições, parlamentos, defesa dos mais frágeis são apenas alguns destes elementos. Na segunda metade do séc. XX, muitos eram os países na Europa e no mundo onde se observava o exercício da democracia plena, com muitos dos seus benefícios, em países como Reino Unido, França, Itália, Suíça, EUA, Bélgica e até Alemanha.

Mas em Portugal, nada disso acontecia.

Um homem misterioso, chamado António Oliveira Salazar, permaneceu como primeiro-ministro de Portugal durante 36 anos. Este país manifestava sinais de grande atraso, face aos restantes países da Europa. A democracia era considerada uma patetice, havia censura na comunicação social e Portugal era dos mais atrasados países da Europa.

Em 1961, um grupo de militares tentou derrubar o governo. Não conseguiu. Na mesma altura, iniciou-se uma guerra que tentava manter os territórios africanos sob o domínio português. Foram 13 anos de guerra e cerca de 1 milhão de soldados envolvidos numa guerra completamente fora do tempo histórico.

Pois foram alguns dos jovens oficiais que combateram em África que tomaram uma iniciativa em 1974: derrubar o regime e implementar a democracia e a liberdade.

Mas derrubar um regime através das forças das armas, exige um planeamento cuidado e minucioso.

Vários militares reuniram-se secretamente e criaram o MFA, o Movimento das Forças Armadas. Depois de muitas reuniões decidiu-se o dia para tomar o poder: 25 de Abril de 1974.

A autoria deste planeamento coube ao major Otelo Saraiva de Carvalho, com 37 anos de idade e com várias missões em Angola e na Guiné.

São 20 páginas manuscritas e depois batidas à máquina de escrever em várias cópias, pois não havia computadores, nem impressoras e as fotocópias eram primitivas e toscas.

Várias unidades militares ao longo do país teriam de ser controladas por militares do MFA.

Instruções em cartas fechadas, passadas clandestinamente, foram entregues ao longo do país.


Um sistema complexo de transmissões foi montado num quartel nos limites de Lisboa, na Pontinha, num tempo onde não havia internet, nem telemóveis. Tudo planeado ao pormenor.

Para avisar os militares à volta de Lisboa, uma estação de rádio iria transmitir às 23h00 o tema que ganhou o Festival da Canção: “E depois do adeus” cantado por Paulo de Carvalho. Mais tarde, a Rádio Renascença, que conseguia emitir para todo o país, fazia ouvir o “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso.

Tudo planeado ao pormenor por este militar com enorme sentido de estratégia militar.

De Santarém partiu uma coluna militar comandada pelo capitão Salgueiro Maia. Atravessou Lisboa pelas principais avenidas, chamando a atenção de várias forças leais ao governo. Enquanto isso, outros locais estratégicos eram ocupados por outras formas militares. Era este o plano estratégico do Golpe Militar.

Pelo mundo fora, golpes militares são sinónimo de sangue derramado e de muitas mortes. Em Portugal foi um golpe pacífico. Mesmo assim, morreram, infelizmente, 5 pessoas, num confronto com a PIDE, a polícia política do regime.

O resultado faz parte da história e trouxe a liberdade e a democracia a Portugal, este país europeu de 10 milhões de habitantes.

Em 1993, o coronel Otelo Saraiva de Carvalho foi visitar a Escola D. Carlos I. Recordo com comoção o aperto de mão firme deste homem de coração gigantesco. Almoçamos, eu e muitos outros docentes, no refeitório da escola, orgulhosos de estarmos por perto dum herói.

O coração grande deste homem polémico quis descansar 25 de Julho de 2021.

Obrigado, Otelo, pelo 25 de Abril.

© Eduardo Rui Alves

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